May 18, 2026

Como é fazer radioterapia: passo a passo do tratamento

Fazer radioterapia gera muita ansiedade, sobretudo quando não se sabe o que esperar. Este artigo descreve, passo a passo, como decorre o tratamento na prática — desde a primeira consulta até à última sessão — com base em informações de sociedades médicas e manuais de boas práticas. O objetivo é que chegue ao primeiro dia já sabendo exatamente o que vai acontecer.

O que é a radioterapia e como age no corpo

A radioterapia é um tratamento oncológico que utiliza radiação ionizante para destruir células cancerosas ou impedir que se multipliquem. A radiação danifica o DNA dessas células, que perdem a capacidade de se dividir e acabam por morrer. As células saudáveis vizinhas também podem ser afetadas, mas possuem mecanismos de reparação mais eficientes, o que permite que se recuperem entre as sessões. É por isso que o tratamento é fracionado: doses diárias menores dão tempo ao tecido normal para se regenerar enquanto as células tumorais, menos eficientes na reparação, vão sendo progressivamente eliminadas. Existem dois grandes tipos: a radioterapia externa, em que a fonte de radiação está fora do corpo, e a braquiterapia, em que fontes radioativas são colocadas dentro ou próximo do tumor. Este guia foca-se na radioterapia externa, que é a mais comum.

Primeira consulta: planeamento e decisão

Tudo começa com uma consulta com o médico radio-oncologista. Nessa consulta, o médico avalia o seu historial clínico, examina os exames de imagem (tomografias, ressonâncias magnéticas, PET-CT) e define se a radioterapia é indicada para o seu caso. São discutidos o objetivo do tratamento — curativo ou paliativo —, a área a ser irradiada, a dose total necessária e o número previsto de sessões. Um tratamento curativo costuma envolver entre 25 e 35 sessões diárias, enquanto abordagens paliativas podem requerer apenas 5 a 10 sessões. Esta também é a altura para esclarecer todas as dúvidas: efeitos colaterais esperados, cuidados durante o tratamento e questões logísticas como horários e deslocamentos. Leve uma pessoa de confiança consigo, pois a quantidade de informação pode ser grande.

A sessão de simulação (planeamento técnico)

Antes de começar o tratamento propriamente dito, é necessária uma sessão de simulação, também chamada de planeamento ou tomografia de planeamento. Neste dia, será posicionado na mesma mesa e posição que usará durante todo o tratamento. O objetivo é obter imagens detalhadas da área a tratar para que a equipa de física médica calcule com precisão a distribuição da dose de radiação. Dependendo da zona do corpo, podem ser necessários dispositivos de imobilização: máscaras termoplásticas para a cabeça e pescoço, coxins de vácuo para o tronco, ou simples fitas adesivas nos braços. Em alguns casos, especialmente em tumores abdominais ou pélvicos, podem ser colocadas pequenas marcas (tatuagens com pontinhos de tinta, com cerca de 1 mm) na pele para garantir que o posicionamento seja exatamente igual em todas as sessões. A sessão de simulação dura entre 30 e 60 minutos e não envolve qualquer emissão de radiação terapêutica — é apenas imagem.

O período de espera entre a simulação e o início

Após a simulação, não se inicia o tratamento de imediato. A equipa de física médica e dosimetria precisa de tempo para trabalhar. Com as imagens obtidas, o físico médico e o dosimétrista constroem um plano de tratamento tridimensional, definindo os ângulos de incidência dos feixes de radiação, a intensidade de cada campo e as barreiras de proteção para os órgãos saudáveis adjacentes. Este processo envolve software especializado e pode demorar entre uma a duas semanas. É normal sentir impaciência neste período, mas essa espera é essencial para a segurança e eficácia do tratamento. Durante este intervalo, pode ser contactado pela clínica para confirmar dados, agendar horários ou realizar exames complementares. Aproveite para organizar a sua rotina — transporte, horários de trabalho, apoio familiar — porque uma vez iniciado o tratamento, a regularidade é fundamental.

Como é uma sessão de radioterapia no dia a dia

Chegou o dia da primeira sessão. O processo diário segue um roteiro previsível que, em poucos dias, se torna rotineiro. Ao chegar à unidade de radioterapia, dirige-se à receção e aguarda a sua vez. Quando chamado, vai para a sala de tratamento, onde um técnico de radioterapia verifica a sua identidade e o posiciona na mesa exatamente como na simulação. Os alinhamentos laser são usados como referência. O técnico sai da sala e passa a observá-lo através de câmaras e de um intercomunicador. O equipamento (usualmente um acelerador linear) move-se ao redor do paciente, emitindo o feixe de radiação conforme o plano calculado. A emissão em si dura poucos minutos, mas o tempo total na sala — incluindo posicionamento e verificações — costuma ser de 15 a 30 minutos. O paciente não sente absolutamente nada durante a irradiação: não há dor, calor, cheiro ou ruído audível associado à radiação. O equipamento produz apenas um zumbido mecânico normal de funcionamento.

Técnicas mais usadas: IMRT, VMAT e outras

A radioterapia evoluiu muito nas últimas décadas e as técnicas atuais permitem conformar a dose ao formato do tumor com grande precisão. As duas técnicas mais utilizadas atualmente são a IMRT (Radioterapia de Intensidade Modulada) e a VMAT (Terapia de Arco Volumétrico Modulada). Na IMRT, o feixe é dividido em múltiplos segmentos menores, cada um com intensidade diferente, e a dose é administrada por vários ângulos fixos. Na VMAT, o equipamento roda continuamente à volta do paciente enquanto modula a intensidade do feixe, o que permite administrar a mesma dose num tempo menor. Ambas usam um dispositivo chamado colimador de lâminas múltiplas (MLC), composto por dezenas de pequenas lâminas de metal que se movem independentemente para moldar o feixe à silhueta do tumor. Existem ainda técnicas mais avançadas como a radiocirurgia estereotáxica (SRS/SBRT), que administra doses muito altas em poucas sessões, reservada para tumores pequenos e bem definidos.

Ordem cronológica completa do tratamento

Para facilitar a visualização, segue-se um resumo estruturado de todas as etapas por que passa um doente em radioterapia externa, desde o diagnóstico até ao acompanhamento posterior.

  1. Consulta com radio-oncologista: avaliação clínica, revisão de exames, decisão terapêutica e esclarecimento de dúvidas.
  2. Sessão de simulação: tomografia de planeamento, confecção de dispositivos de imobilização, eventual marcação cutânea com tatuagens.
  3. Dosimetria e planeamento: cálculo do plano de tratamento pela equipa de física médica (1 a 2 semanas de espera).
  4. Verificação do plano (first check): antes da primeira sessão, o plano é validado na máquina com medições de dose para confirmar a exatidão.
  5. Sessões diárias de tratamento: posicionamento, verificação de imagem (imagem guiada/IGRT), irradiação — de segunda a sexta-feira, excluindo fins de semana e feriados.
  6. Consultas de seguimento semanais: o médico avalia tolerância ao tratamento e prescreve medicação para efeitos colaterais.
  7. Consulta final: avaliação ao término das sessões, orientações de cuidados pós-tratamento e agendamento de vigilância.

Efeitos colaterais mais comuns e como lidar com eles

Os efeitos colaterais da radioterapia dependem da área tratada e da dose administrada. São classificados em agudos (surgem durante ou pouco depois do tratamento) e tardios (podem aparecer meses ou anos depois). Os efeitos agudos mais frequentes incluem fadiga, que tende a acumular-se ao longo das semanas e é o sintoma mais universal da radioterapia; vermelhidão e irritação na pele da área irradiada, semelhante a uma queimadura solar; e reações específicas do órgão tratado, como dificuldade em engolir (radioterapia de cabeça e pescoço), diarreia ou urgência urinária (radioterapia pélvica), ou tosse seca (radioterapia torácica). A maioria destes efeitos é temporária e resolve-se nas semanas seguintes ao fim do tratamento. O médico prescreve medicações sintomáticas — cremes hidratantes para a pele, protetores gástricos, antidiarreicos — e a equipa de enfermagem dá orientações de cuidados diários, como usar sabonetes suaves, evitar roupas apertadas sobre a área tratada e manter uma alimentação adequada.

Cuidados práticos durante as semanas de tratamento

Manter uma rotina o mais normal possível é fundamental para o bem-estar durante a radioterapia. Em termos de alimentação, privilegie refeições fracionadas, ricas em proteína e calorias, especialmente se houver perda de apetite ou dificuldade de ingestão. Hidrate-se bem, bebendo água ao longo do dia. A pele da área irradiada merece atenção especial: lave apenas com água morna ou sabonete neutro prescrito, seque por pressão (não esfregue), e aplique o produto hidratante recomendado pela equipa. Evite exposição solar direta na área tratada, não use desodorantes com álcool se a zona for a axila, e não aplique produtos não autorizados sobre a pele irradiada. Se trabalha, converse com o médico sobre a possibilidade de manter a atividade — muitos doentes conseguem trabalhar pelo menos meio período durante o tratamento. Planeie o transporte com antecedência, pois os atrasos podem comprometer o horário agendado. E não hesite em pedir apoio psicológico se sentir ansiedade ou depressão: a maioria dos centros oncológicos tem serviços de apoio disponíveis.

O que acontece após terminar as sessões

O último dia de radioterapia costuma ser um momento de alívio emocional significativo, mas é importante saber que o corpo continua a responder ao tratamento nas semanas seguintes. Os efeitos colaterais agudos podem até intensificar-se ligeiramente nas primeiras duas semanas após o fim, antes de começarem a regredir. É mantida a medicação prescrita e são dadas orientações específicas de cuidados pós-tratamento. Uma consulta de seguimento é agendada, geralmente entre 4 a 8 semanas após a última sessão, para avaliar a resposta ao tratamento com exames de imagem e o estado dos efeitos colaterais. A partir daí, o doente entra num programa de vigilância oncológica periódica, que pode incluir consultas semestrais ou anuais durante vários anos. É fundamental manter essas consultas mesmo que se sinta bem, pois servem para detetar eventuais recidivas precocemente e monitorizar efeitos tardios.

Perguntas frequentes sobre radioterapia

A radioterapia dói?
Não. Durante a sessão propriamente dita, o paciente não sente qualquer dor, calor ou sensação física associada à radiação. O desconforto eventual vem dos efeitos colaterais, não da irradiação em si.

Possa transmitir radiação às pessoas à minha volta?
Não, no caso da radioterapia externa. A radiação está presente apenas enquanto o equipamento está ligado e a pessoa não fica radioativa após a sessão. Pode conviver normalmente com familiares, incluindo crianças e grávidas. A exceção é a braquiterapia temporária, em que existem protocolos específicos de isolamento.

Posso faltar a uma sessão?
Faltas devem ser evitadas ao máximo, pois o tratamento é calculado para ser contínuo. Uma ausência pontual pode ser compensada, mas múltiplas faltas reduzem a eficácia do tratamento. Em caso de impossibilidade, contacte a clínica imediatamente para que a equipa decida como proceder.

Quanto tempo dura cada sessão?
O tempo total na sala de tratamento é de 15 a 30 minutos, mas a emissão de radiação em si dura apenas poucos minutos. O restante do tempo é gasto no posicionamento e nas verificações de imagem de rotina.

Posso dirigir sozinho após a sessão?
Na grande maioria dos casos, sim. A radioterapia externa não tem efeito sedativo e não interfere com a capacidade de condução. No entanto, se sentir fadiga intensa ou estiver a tomar medicação que cause sonolência, evite conduzir.

Fontes

[1] Princípios Físicos e Técnicos em Radioterapia — Editora Rubio: issuu.com

[2] Manual de Boas Práticas de Radioterapia — Ordem dos Médicos: ordemdosmedicos.pt

[3] Vou Fazer Radioterapia — Técnicas de Radioterapia Externa: voufazerradioterapia.pt

[4] Radioterapia — O que é, como funciona e como é feito — Rede D’Or São Luiz: rededorsaoluiz.com.br

[5] Rotina do tratamento de radioterapia — Sociedade Brasileira de Radioterapia: sbradioterapia.com.br